Entrevista à Dr.ª Licínia Santos, Nova Chefe de Divisão da Biblioteca da FDUL

  • Como é que o seu percurso profissional contribui para o projeto da biblioteca?

O meu percurso profissional tem 30 anos. O meu primeiro trabalho foi na Biblioteca Nacional. Integrei a equipa de automatização da Porbase, do Catálogo Nacional Bibliográfico. Sou das primeiras pessoas a fazer a passagem da formação manual para a formação automatizada. Estive alguns anos no Ministério da Agricultura, onde fui responsável pela informatização dos serviços de documentação tendo regressado à Biblioteca Nacional, onde fui responsável pela área da cooperação. Desde essa altura, conheço a realidade das universidades e a sua forma de estar. Enquanto responsável da área de cooperação, comunicava diretamente com as universidades e ajudava-as a fazer a integração dos seus catálogos, no catálogo nacional Porbase. Vem daí o meu primeiro contacto com a realidade da biblioteca da FDUL. Mais tarde, vim para a Universidade de Lisboa e integrei a equipa de implementação e criação do SIBUL, faço parte do grupo de implementação do sistema e dos grupos de normalização bibliográfica da universidade. O meu percurso permite-me conhecer a realidade desta biblioteca, a sua qualidade técnica e documental, e trazer um aporte diferente, contribuindo para manter a biblioteca na sua posição estratégica dentro da Faculdade, mas também colocá-la em níveis de referência, no plano nacional e internacional

  • Que projetos tem para a Biblioteca e qual o seu maior desafio?

Muitos projetos e, no essencial, dois grandes desafios. O maior, tem a ver com o facto, de a biblioteca ser muito física e manual. Como é uma biblioteca que não tem empréstimo, vive muito do seu espaço físico e da localização das obras nas estantes, é neste sentido que digo que é uma biblioteca muito manual, pois maioritariamente as ações e relações dos utilizadores com os documentos são físicas e no espaço, não se utilizam ferramentas informáticas, tais como reservas de documentos, renovações de empréstimos on-line, não se conhecem as verdadeiras necessidades dos utilizadores, não há análise de qualquer natureza sobre as suas pesquisas, os não resultados obtidos numa pesquisa, etc. Para mim é um desafio, porque a minha experiência tem tido mais a ver com a automatização. Eu vejo as bibliotecas de uma forma muito digital. O grande desafio é manter a importância do espaço físico, mas, tornar o espaço, por si, mais falante. A dificuldade que sinto nesta biblioteca é a comunicação direta com os utilizadores, o seu relacionamento com as obras, eles utilizam o catálogo, mas a biblioteca é muito distante e se forem à estante não sabem o que está ao lado, não conseguem aperceber-se das novidades, a menos que estejam muito atentos ao que é a última obra que foi colocada na estante. Esse é o desafio; mantendo a biblioteca física, mas recriá-la com alguns aportes digitais para que o utilizador possa ter outra visão.

Um dos projetos, é introduzir a tecnologia RFID, uma tecnologia de radiofrequência que nos ajudará a manter a biblioteca arrumada mas também a localizar sempre um livro perdido. Esta circunstância numa biblioteca de Livre Acesso é crucial. Por outro lado, não temos estatísticas de utilização. Como não se processam empréstimo de documentos, a biblioteca não sentiu a necessidade, até hoje, de fazer estatísticas. Por isso, não sabemos quais são os livros mais utilizados, e com isso melhor gerir a coleção, como adquirir mais exemplares, gerir eventuais problemas de encadernação ou de maior cuidado de preservação. Não conseguimos verificar que livros estão a ser mais danificados, porque não sabemos que livros são mexidos. Só temos conhecimento dos livros que ficam nos carrinhos para arrumação, mas ainda assim não é feito qualquer tipo de análise. Ainda com esta tecnologia e com o recurso a um conjunto de apps, podemos inovar, fazendo a georreferenciação das obras, o que pode gerar uma dinâmica diferente na utilização da biblioteca. Assim, o utilizador pode identificar as obras que estão mais próximas, saber o que está na estante, etc. Esta mesma tecnologia é muito poderosa, é um mundo por descobrir ainda, na área das bibliotecas, mas poderia marcar toda a diferença quer no seio da Universidade de Lisboa, quer entre as bibliotecas universitárias de referência.

Outro projeto, passa pela utilização de QR Code, para publicações digitais, nomeadamente aplicados à coleção das revistas de que se possui assinatura digital. O Fundo documental, tornar-se-á mais poderoso e mais perto do utilizador.

Nestes dois últimos meses, remodelámos fisicamente o espaço da biblioteca. A biblioteca tem de ser mais inclusiva no seu próprio espaço. Quem entra, na minha perspetiva, tem de se sentir acolhido, ter espaço para entrar, sentar, ver e para sentir o que se passa na biblioteca, o que ela tem para oferecer, numa dinâmica total de biblioteca em Livre Acesso.

Para que estas mudanças aconteçam o Prof. Doutor Miguel Teixeira de Sousa, enquanto Professor Bibliotecário, tem tido um papel fundamental. Desde o início, que tem ouvido as minhas ideias e está sempre disponível para incentivar os projetos. O desafio tem sido surpreendê-lo, sendo ele o primeiro impulsionador para a modernização da biblioteca, quer na abertura à utilização de novas tecnologias, quer na constante atualização do acervo bibliográfico da biblioteca.

O outro grande desafio tem a ver com a equipa. A biblioteca possui uma excelente equipa, tecnicamente bem preparada, com ótimos hábitos de trabalho, sendo que, para mim isso é um privilégio, é uma mais valia no desenvolvimento do meu trabalho. O desafio, é internacionalizá-la, abri-la ao exterior, permitir-lhe que tenha sempre, um pleno conhecimento das melhores praticas nacionais e internacionais. A equipa está muito fechada dentro deste espaço da biblioteca, acho que a devo incentivar a visitar outras realidades e enriquecer-se com novos conhecimentos, para além de poder partilhar também o que se faz na nossa biblioteca. Apostar na sua qualificação, penso ser um caminho para prestar também melhor serviço. A ideia é colocar a biblioteca da FDUL como uma biblioteca de referência para as suas congéneres e, isso passa, sobretudo por esta troca de experiências e por incorporar novas técnicas e tecnologias, incentivar parcerias e, manter a equipa altamente motivada. Este é o desafio!

  • Em que medida as novas tecnologias podem contribuir para melhorar a utilização da nossa biblioteca? (para além das que já referiu anteriormente)

Existem mais tecnologias que podem ser utilizadas, mas, a questão, passa sobretudo, pela maior interação entre o livro, a informação pertinente e o utilizador, numa relação cada vez mais estreita. Por exemplo, ter uma estante mais automatizada, até no que diz respeito à pesquisa. Se estivermos a falar das revistas, por exemplo, onde temos um grosso maior de publicações que são digitais, faz sentido ter um Tablet incorporado na própria estante e ele próprio criar essa interação de forma imediata. Ocorre-me agora a ideia, de poder ter uma luz sensível à passagem de um utilizador sempre que a estante tem novos conteúdos ou qualquer outro destaque que se queira fazer.

A partir de janeiro, vamos passar a utilizar um novo interface de pesquisa (EDS) que permite fazer uma pesquisa em simultâneo a bases de dados, repositórios, catálogos, etc. Esta interface já está disponível há 3 anos na Reitoria, mas nenhuma biblioteca está a utilizar devidamente e a explorar as suas potencialidades. Já informámos a Reitoria, que a partir deste mês, queremos tornar essa interface a nossa ferramenta principal para pesquisa de recursos. Essa tecnologia permite que o utilizador possa criar cada vez mais alertas e que, com as ferramentas disponíveis, consiga, de forma autónoma, identificar áreas de interesse e, em cada coisa que a biblioteca receba, cada link que faça, cada base de dados que assine, cada conjunto de documentos que estejam disponíveis, consiga saber que existem, que lhe fazem falta e que seja notificado que estão disponíveis. Independentemente do tipo de tecnologia, que podem ser várias e diferenciadas, o que importa é que cada vez mais, o utilizador conseguir alcançar o maior numero de informação pertinente.

  • Como é que os utilizadores podem contribuir para melhorar a biblioteca?

Há uma grande utilização dos livros, nomeadamente pela necessidade de cópia, em virtude de não haver empréstimo, que resulta numa degradação mais rápida dos documentos. Mas esta não é uma responsabilidade do utilizador, que não podendo levá-los não tem outra forma de acesso. Cabe-nos, procurar uma solução.

A conservação dos documentos passa por não os cortar, não os riscar ou sublinhar, porque isso dificultará a experiência do próximo utilizador.

Mas mais do que isso as relações têm de ser construtivas. Vejo a relação utilizador/biblioteca, como uma interação que deve ser cada vez mais próxima. Os utilizadores respeitam a biblioteca, respeitam as pessoas que aqui trabalham, respeitam os documentos. Mas podem trazer diferentes conhecimentos e criar uma mais valia na coleção. Até nas propostas de aquisição, podem ter alguma relevância. Os utilizadores fazem muitos pedidos de EIB para bibliotecas exteriores e internacionais e sem saberem acabam por ser sugestões de aquisição.

Por outro lado, neste momento temos um gabinete disponível só para apoio ao utilizador e eles podem utilizá-lo, não só para melhor aproveitarem o que são os recursos da biblioteca, mas também para poder fazer sugestões, e transmitir projetos que estejam a decorrer e que têm necessidades alargadas. Estas necessidades podem depois ser analisadas pelo Professor Bibliotecário de modo a ver se faz sentido adquirir estes documentos para o crescimento da coleção da biblioteca.

  • Como é que a biblioteca comunica com os seus utentes?

O gabinete surge na sequência de uma necessidade de formação. O que me faz retornar à questão da equipa que está muito bem formada tecnicamente e pronta a dar o apoio necessário aos utilizadores, mas verifica-se a falta de ações de formação para os utilizadores. Neste momento, a faculdade faz um grande investimento financeiro em novas aquisições, torna-se urgente dar a conhecer à comunidade de utilizadores isso mesmo e, de algum modo, dar a conhecer à direção o retorno desse investimento. Daí a criação deste gabinete de referência e apoio ao utilizador, no passado mês de dezembro. Prevemos ainda neste ano de 2020, promover uma formação mais cadenciada, para que os utilizadores utilizem cada vez mais os recursos disponíveis e para que possamos, através dos fornecedores dos recursos digitais, ter acesso a estatísticas de utilização e incentivar a publicação e utilização, trazendo uma mais valia à investigação da faculdade.

Daquilo que existe hoje, a biblioteca está de parabéns pelas ferramentas que tem. No conjunto de bibliotecas da Universidade de Lisboa, a nossa biblioteca faz a diferença e, devo referir o trabalho exemplar de toda a equipa e, em particular, o da Dr.ª Sofia Soares que, tem sido uma entusiasta do site e da forma como tem vindo a fazer a newsletter que incorpora um flip book na divulgação das novidades. Há algumas ideias que estão na calha, e que têm vindo a ser trabalhadas pela Dr.ª Sofia Soares, no sentido de se construírem biblioguias, para cada área, de modo a que os utilizadores possam saber que ferramentas e recursos têm disponíveis. Tem vindo também a ser desenvolvida, e que passa despercebido à maioria dos utilizadores, a criação de uma ligação entre a bibliografia dos docentes e o que existe na biblioteca e está disponível no catálogo. Qualquer aluno pode, no catalogo da biblioteca, pesquisar uma disciplina especifica e chegar à sua bibliografia. Com a nova ferramenta de pesquisa EDS, vamos tentar integrar esta função de outra forma, para que mesmo os próprios docentes, querendo, possam, para além da bibliografia, disponibilizar outros trabalhos e possam agregá-los numa mesma ferramenta suportada na plataforma Moodle.

Não existe falta de comunicação com os utilizadores, esta, pode é ser melhorada e utilizar mais e diversos canais.

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